21 de junho de 2008

Hilda Hilst

“Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes
E o azul diluído, azul-branco das paredes
E uma fissura de um verde anoitecido na moldura de prata
E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo
Silencioso e raro como um barco de asas.
Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!


Desce da noite um torpor singular
Água sob o casco de um velho veleiro calcinado
Em mim o grande limbo de lamento e dor
E o medo de esquecer-te, de soltar estas âncoras
E depois florir sem ao menos guardar a tua ressonância
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa
E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma”
“Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel”
Ficcionista..... Irreverente..... Eremita..... Dramaturga..... Esotérica....e sobretudo uma portentosa Poeta, foram algumas das inúmeras e geniais “personas” assumidas por Hilda Hilst ao longo de sua luminosa permanência entre nós, brasileiros.
Nascida em Jaú, no interior de S. Paulo, , no dia 21 de abril de 1930, filha única do fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso, com pouco tempo de vida, seus pais se separaram, o que motivou sua mudança, com a mãe, para a cidade de Santos (SP). Seu pai, que sofria de esquizofrenia, foi internado num sanatório em Campinas (SP), tendo nessa época 35 anos de idade. Até sua morte passou longos períodos em sanatórios para doentes mentais.

“Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.”

Foi para o colégio interno, Santa Marcelina, na cidade de São Paulo, em 1937, onde estudou por oito anos. Aconselhada pela mãe, em 1948 inicia seus estudos de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco. A partir de então levaria uma vida boêmia que se prolongou até 1963. Moça de rara beleza, Hilda comportava-se de maneira muito avançada, escandalizando a alta sociedade paulista. Despertou paixões em empresários, poetas (inclusive Vinicius de Moraes) e artistas em geral.
Em 1966 mudou-se para a Casa do Sol, uma chácara próxima a Campinas. onde passa a viver com o escultor Dante Casarini, com quem se casaria 2 anos depois, por imposição materna. É lá que ela passa a dedicar-se quase integralmente à atividade literária; em sua maioria, são leituras teóricas, relacionadas à física, à filosofia e à matemática, com as quais ela procura refletir sobre questões como a imortalidade da alma, "do ponto de vista científico, não apenas metafísico", como ela dizia. Foi a preocupação com a imortalidade da alma, aliás, que a levou, na década de 70, a realizar uma série de experiências com o intuito de gravar vozes de mortos.

Hilda Hilst escreveu por quase cinqüenta anos. Passou os últimos anos de sua vida na chácara, quase uma eremita, rodeada dos inúmeros cachorros que recolhia e cuidava e, apesar de ter sido agraciada com os mais importantes prêmios literários brasileiros, nunca teve um reconhecimento público à altura de sua genialidade.

Faleceu no dia 04 de fevereiro de 2004, na cidade de Campinas (SP).

"...e tudo é tão redondo e completo na hora da morte, pois aí sim é que estás completamente acabado, inteirinho tu mesmo, nítido nítido, preciso, exato como um magnífico teorema..."

1 comentários:

Anônimo disse...

Admiro demais o trabalho de Hilda Hilst... perfeito!

 
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